Mesmo Sangue. Mesmo Direito. Por que fazer essa campanha?

Todo tipo de preconceito causa indignação, seja ele vindo de uma pessoa, de um grupo delas, de uma empresa, de instituições públicas, de leis. O que nunca podemos fazer, nós que vislumbramos um mundo de igualdade, é perdermos a capacidade de, justamente, nos indignarmos, nos aterrorizarmos frente a ideologias e atos que segregam, humilham e violentam seres humanos. 

É com a máxima indignação que milhões de gays, homens bissexuais e travestis e de pessoas vêem a postura da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de proibir a doação de sangue por homens que tenham feito pelo menos uma vez sexo com outro homem nos 12 meses anteriores à época da coleta. Mulheres que tenham feito sexo com esses homens recebem o mesmo veto.

Essa regra é de 2004. Antes disso, a vedação era total. Mais que 12 meses, o que tinha sido feito na vida poderia ser visto como critério para que gays, homens bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens fossem tratados como que “quase com certeza infectados” pelo vírus HIV.

Modificaram a forma, mas a visão que molda as regras não. A base de ambas é a idéia preconceituosa de que aquele grupo de homens, por serem o que são e por fazerem o que fazem, independentemente de como se protegem das doenças sexualmente transmissíveis, eles não podem doar sangue!

Essa prática não condiz com o conhecimento científico das últimas décadas. Há muito, sabe-se que grupos de risco, termo vindo dos anos 1980, não existem. O que há é um vírus, o HIV, que pode infectar mulheres, jovens, homens, idosos, adultos, profissionais do sexo, desempregados, executivos, solteiros, casados, negros, brancos, homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, heterossexuais. Todos e todas podem se infectar. Todas e todos devem se proteger. Todas e todos poderiam doar…

Sendo assim, por que essa restrição contra gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens? Por que rejeitar nosso sangue sem ao menos saber se nós nos protegemos contra o HIV? Quem é gay, bissexual ou fez sexo com outro homem “nos 12 meses anteriores à doação” sabe como somos tratados nos hemocentros de todo o Brasil. Uma vez explicitado quem somos, tudo o mais é ignorado. Recebemos a tarja de ”não habilitados”.

Um heterossexual que tenha feito sexo sem proteção tem a doação rejeitada. Um heterossexual que não tenha feito sexo sem proteção, tem a doação aceita. A pergunta é: por que simplesmente a mesma regra, não outra, não uma menos rigorosa, a mesma, não é feita a nós gays, bissexuais e outros homens  que fazem sexo com outros homens?

A palavra preconceito ensina. É algo pré-concebido, suposto, esperado… Com base em quê? Em desconhecimento, em falta de interesse de saber, em idéias reacionárias que recebem defesa de quem não se preocupa em romper com possíveis injustiças, as quais atentam contra o princípio de respeito e igualdade.

Existir regras distintas entre heterossexuais e entre gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens na doação de sangue é sim discriminar, separar e dar valor distinto a cada parte. Uns são mais, outros são menos e podem ser tratados sem nenhuma consideração.

A consulta pública feita pelo Ministério da Saúde sobre Portaria do Regulamento Técnico de Procedimentos Hemoterápicos, aberta de 2 de junho a 2 de agosto de 2010, é uma oportunidade de todas cidadãs e todos cidadãos mostrarem sua indignação contra essa regra, indubitavelmente discriminatória.

É por isso que o Estruturação – Grupo LGBT de Brasília, ONG com 16 anos de existência, faz a campanha Mesmo Sangue. Mesmo Direito. Para que nós nos somemos, interfiramos nesse processo, denunciemos a homofobia institucional cometida pelas atuais regras na doação de sangue no Brasil. 

Consulta pública é um processo no qual um ente governamental chama a sociedade para opinar a respeito de uma proposta. Em declarações à imprensa, autoridades do Ministério da Saúde e da Anvisa disseram que a proibição sobre a qual versamos aqui não será retirada. Pois nós dizemos: não vamos nos calar. Sempre que alguém ou nós formos vítimas de discriminação, a idéia criada do impossível não irá nos tirar a capacidade de nos indignarmos, de lutarmos… até conseguirmos.

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“É hipócrita aceitar sangue de hétero com várias parceiras e rejeitar de homossexual monogâmico”

Pesquisadores canadenses criticam veto à doação de sangue por gays

De Welton Trindade, do Parou Tudo.

Trecho: “Mark Wainberg, diretor do centro de Aids de um dos mais importantes hospitais de Montreal (…) critica o fato de, em 2010, ser aplicada uma regra do início da década de 80. Nesse tempo, houve importantes mudanças na epidemia, que começou a atingir não só homossexuais. Wainberg diz que é hipócrita aceitar a doação de um heterossexual com várias parceiras e vedar o sangue de um gay monogâmico. Também achamos, Wainberg.”

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“Proibição tem base cientificamente duvidosa”

Senadores dos EUA querem autorizar doação de sangue por gays

Do R7 com a France Presse

Trecho: “Senadores americanos pretendem abolir a proibição em vigor desde 1983 que impede a doação de sangue por homossexuais, por considerá-la “superada e cientificamente duvidosa”.

O senador democrata John Kerry, liderando um grupo de 17 políticos democratas e um independente, escreveram à FDA (a autoridade nacional de controle de medicamentos) pedindo que o órgão acabe com a proibição. A Cruz Vermelha americana e outras organizações de saúde apoiam a iniciativa.”

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Novas regras mantêm proibição de gays doarem sangue

Felipe Maia e Diego Junqueira, do R7

Apesar de protestos de ativistas, os homossexuais devem continuar proibidos de doar sangue no Brasil. As novas regras sobre o assunto, que foram propostas nesta quarta-feira (2) pelo Ministério da Saúde, continuam vetando a participação de homens que tenham feito sexo com outros homens nos 12 meses anteriores à doação, mesmo que eles usem camisinha.

O ministério publicou no Diário Oficial da União uma proposta sobre as regras de doação de sangue, que agora entra em consulta pública por 60 dias, para que a sociedade dê sugestões sobre o tema. O governo vai receber sugestões e alterações da comunidade científica e outras organizações, mas a última palavra sobre o assunto ficará mesmo com a administração federal.

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“A Anvisa diz que tem controle sobre o sangue, então não faz sentido restringir”

Novas regras mantêm proibição de gays doarem sangue

Felipe Maia e Diego Junqueira, do R7

Trecho: ”(…) José Carlos Veloso, vice-presidente do Gapa-SP (Grupo de Apoio à Prevenção à Aids), se a Anvisa tiver um controle rigoroso do sangue doado, não é necessário restringir os homossexuais nem aqueles que tenham tatuagens ou mais de um parceiro.

– A Anvisa diz que tem controle sobre o sangue, então não faz sentido restringir, porque isso só reforça o preconceito sobre essas pessoas. Tem muito homossexual que não é soropositivo, que pratica a fidelidade e que usa preservativo. Não é nivelando por baixo que se resolve essa questão.

Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum de Ong/Aids do Estado de São Paulo, diz que a restrição deveria ser retirada, pois ela “estigmatiza muito mais essa população”.

– Temos que trabalhar com a inclusão e não com a exclusão. Isso com certeza é uma forma de preconceito e não pode estar contextualizada dessa forma, pois hoje a Aids está em todas as camadas sociais e não apenas nesse grupo.

Mario Angelo Silva, coordenador do Polo de Prevenção de DST/Aids da Universidade de Brasília, também é contra a proibição. Ele aponta que, em vez de eliminar esse grupo, o governo deveria investir em testes mais seguros para a doação de sangue. O momento da doação, diz ele, poderia inclusive servir para que os doadores recebessem aconselhamento sobre práticas sexuais seguras e prevenção à Aids.

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